Cassoulet: a medalha do Bronza

[22 jul 2012 | Pedro Mello e Souza | 3 comentários ]

Esse seria um post para uma seção que eu iria inaugurar, mas deixei pra depois. Seria o “Foto roubada do Instagram do Dia”, uma variação do “Imagem do Dia”. Mas aí eu vi o registro do Alexandre Bronzatto, o nosso Bronza, sujeito delicado e picante, complexo e estruturado, crítico imparcial e advogado da boa mesa. Foi uma foto feita alguns segundos diante da imolação que celebrava o seu aniversário. E resolvi evoluir a coisa. Valeu um “Palavra do Dia”.

 

Tinha comentado com ele que esse prato está no meu top 3 coronariano – o da sensação, não o do colesterol, esse ente lendário. Mas não cheguei a dizer que me deprime ouvir que é uma feijoada francesa. Não é. Um dia, quem sabe, a nossa feijoada, maravilhosa, sim, mas estarrecedora e excessivamente nutritiva, como dizia Cascudo, ainda chegará ao refinamento de um autêntico cassoulet. Só não cabem ao caso patriotadas de terceiro mundo.

 

É outro feijão – não existe aqui -, outras carnes (carnes e gansos), outras gorduras (carnes e gansos II), a personalidade de outras charcutarias, as doçuras de outros legumes, o travo de outras ervas, a elegância de outros fornos, a profundidade de outras tradições. Em tempos de olimpíadas, vale uma medalha de ouro. Ou, melhor ainda, uma medalha de Bronza.

 

Cassoulet do restaurante Marcel (Foto roubada do Instagram de Alexandre Bronzatto)

 

Isso posto, compartilho aqui os rabiscos e alfarrábios que tenho esboçados para o verbete da enciclopédia:

 

A expressão cassoulet é uma prosódia do dialeto occitano “caçolo” e “caçolèt”, terrine, a mesma etimologia do espanhol cazuela. Um dos mais tradicionais pratos franceses, “dieu de la cuisine occitane”, segundo Prosper Montagné, transformou-se em campo de batalha pela verdadeira origem do prato e o formato da receita original. A própria palavra é bonificada apenas em 1897 pelos dicionários franceses, contrariando a origem medieval que as lendas nos impõem.

 

As receitas, que mudam de cidade para cidade, principalmente Toulouse, Carcassonne e Castelnaudary, que reclamam para si a autenticidade da receita, tornaram-se objeto de legislação específica por decreto presidencial dos anos 60 quando, de tão popular, acabou se tornando uma das refeições em conserva mais vendidas da França.

 

A poesia fica com a seqüência do dito de Montagné, que assume também tons de ranking: “Si le cassoulet est le dieu de la cuisine occitane: Dieu Le Père, qui est le cassoulet de Castelnaudary, Dieu Le Fils, celui de Carcassonne, et Le Saint-Esprit, celui de Toulouse“. Denuncio aqui a parcialidade: Montagné passou a infância em Castelnaudary.

 

Mas se preparo original não prevê leis, prevê regras rígidas. Um deles é o cozimento longo do feijão branco francês, diferente do nosso,  menor, que dá pouco caldo. Os tipos lingot e coco são as mais comuns, mas uma enquete feita pelo jornal Nouvel Observateur, em 2008, trouxe à discussão as variedades tarbais e aquelas plantadas em Pamiers e Cazères, além das ancestrais monjettes.

 

Outros ingredientes surpreendem os hábitos do gentio de Vera Cruz: o tomate, as batatas e cenouras em discreta brunoise, condimentos como o bouquet garni e, em alguns casos, o cravo e o cominho. A forma de preparo também é diferente, já que o cozimento é feito com caldos de unto e de carnes como a de cordeiro ou de codorna.

 

A untuosidade final, por exemplo, é obtida com sucessivas gratinadas, regas de caldos e misturas das crostas que se formam, dependendo da versão, com o auxílio da farinha de rosca de pão campagnard. Quantas são? Seis a sete, dizem os compêndios do Segundo Império, mas o bom senso não confirma.

 

O próprio Anatole France, como lembra André Castelot, em seu monumental L’histoire à table, brincava com o apuro e o tempo de preparo do cassoulet que costumava degustar em Paris. Segundo ele, estaria há duas décadas, na mesma panela, sob o mesmo fogo: “Le cassoulet de Clémence cuit depuis vingt ans, elle ajoute dans le poêlon tantôt de l’ oie, , tantôt du lard, tantôt le saucisson ou des haricots, mais c’ est le même cassoulet”.

 

O mais clássico e apreciado de todos os cassoulets é o que vem de Castelnaudary, tida também como o berço lendário da receita, em inícios do século 15: longamente sitiados pelos ingleses durante a Guerra dos 100 Anos (na realidade, 116) e já no limite de suas resistências, os habitantes da cidade teriam juntado em suas maiores “cassoules” a derradeira provisão de carnes de porco e aves, salsichas, gorduras, legumes e favas para o preparo de um cozido que restaurasse as forças dos guerreiros para uma decisiva batalha.

 

O lanchão teria restaurado e multiplicado a força dos franceses, que teriam se lançado de surpresa contra o inimigo, que, em pânico, teria debandado. A lenda é improvável, is ingleses levaram tempo para debandar. E é pouco provável que tivessem favas em estoque – os feijões só chegariam à França 100 anos depois, através dos bascos, chegando à Gascogne e ao Loire (passando por Bordeaux, bien sûr) – e dos catalães, que a integraram no Pays de la Langue d’Oc, aí incluídos o Roussillon e a Provence.

 

Entre as carnes, outro diferencial e motivo básico do racha entre as cidades. O porco, que estamos acostumados a associar à feijoada, é a base do sal na receita de Castelnaudary, seja na forma de pernil, de barriga e de costelinha, que se juntam a embutidos e ao confit de ganso. Em Carcassonne, pernil de cordeiro e perdizes. E, finalmente, em Toulouse, o mais disseminado, barriga de porco, confit de ganso e o salsichão, orgulho da cidade.

 

Três receitas, um encanto. E na disputa saudável (gordura de ganso é saudável) entre as cidades, as fileiras cerradas entre os amantes do cassoulet, que – estou com o Bronza – troco por qualquer bolo de aniversário.

 

Marcel

Rua Consolação 3555

São Paulo

(11) 3064-3089

http://www.marcelrestaurante.com.br

 

 

 


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Depoimentos

  1. Cris Beltrão disse:

    É claro que, em vez de André Castelot, li três vezes André Cassoulet!

  2. Bronza disse:

    Melhor que o cassoulet da foto só essa homenagem emocionante, Pedro.
    Que presente de aniversário delicioso.
    Grazie mille!