É meio ridículo, oquei, mas não custa mais uma tentativa de se livrar do pesadelo de se guardar o vinho para o dia seguinte. Desta vez, a solução é bem humorada e de uma criatividade irritante: um balão de plástico que é introduzido pelo gargalo e que se enche com um uma bomba manual, em borracha. Com a expansão, o ar que destruiria o vinho é praticamente eliminado do contato com o líquido, que ganharia, assim, uma honrosa sobrevida. Na Amazon, por 25 dólares.
Quem conhece Paulo Nicolay sabe de suas vidas duplas. Uma delas, a do engenheiro que se transformou em um dos mais importes críticos de vinhos do país. A outra é a sua relação com o Uruguai, onde foi casado e tem um filho. Dois, aliás, se contarmos com o Honesto, rótulo que, como consultor, ele acaba de produzir para a Punta Lobos, grife de azeites.
Elegância, acidez equilibrada e um final seco e agradável são as marcas do produto, que não tem as marcas rebeldes de sua uva: o abacaxi e o maracujá, que entram como notas delicadas, uma no início, outra no fim da degustação. Nesse jogo entre Brasil e Uruguai, onde o vinho já é um sucesso da crítica local, todos ganharam. O vinho custa 60 reais e pode ser encomendado diretamente à importadora, a ASA, de Ana Luisa Bernachi, em www.anasantosalimentos.com.br
Editar uma revista de arquitetura tem as suas vantagens gastronômicas: há uma acesso franco a tudo o que se refere à mesa e à cozinha, dos móveis e apetrechos às facas de chef e os talheres dos comensais. E, como todo arquiteto de bom gosto que se preze, preza também o gosto bom, temos a sugestão do japonês Toyo Ito, vencedor do último Pritzker de Arquitetura, considerado o oscar do mercado.
No caso dele, as linhas orgânicas de seus prédios em torno do mundo ganharam também a mesa, com a série Mu, de talheres especiais, encomendados pela Alessi. A coleção, composta por 75 peças, foi lançada em janeiro, na feira Maison&Objet, em Paris e já garantiu mais prêmio para Ito: o de design na Bienal de Veneza. Tudo isso tem o seu preço: a garfada de 5 peças sai por 90 dólares.
Sim, branco. O enredo é simples: território de meia montanha, sem colinas, com vinhas até 700 metros de altitude, com plena mas delicada exposição solar no maior vinhedo da Toscana. Esse é o resumo da ópera Castello di Pomino, que a Marchesi Frescobaldi, através de um dos descendentes da família, Stefano Benini, trouxe para apresentar em almoço na Cavist, no Rio de Janeiro. A combinação entre os clones locais de chardonnay e pinot grigio resultaram em um vinho fresco, floral, mineral, de acidez esplêndida. Na boca, manteve-se vibrante e redondo mesmo com a temperatura subindo após alguns minutos. Ou, como explicou Benini, “é um chardonnay com a sutileza do frio e a estrutura do calor.
Atenção aos fãs da Água das Pedras: a concorrência mora ao lado. Alguns quilômetros acima das fontes salgadas, para ser mais exato, quando chega-se à região de Vidago, que batiza uma das mais novas águas minerais portuguesas. Levíssima, natural para valer, a água tem gás natural – não a carbonatação artificial das águas de grife. Tal como a vizinha, é administrada pela gigante Unicer e tem um paladar igualmente salino, que dá uma sensação de alívio mesmo diante das refeições corpulentas, que marcam aquela região do norte de Portugal. Esta, na foto, já está na carta do restaurante Belcanto, mas já pode ser encontrada em pontos finos de Lisboa.
Finalmente, depois de décadas, saiu o reconhecimento oficial da denominação Gruyère. É um ato que, apesar do peso legal, corre o risco de ser enterrado como letra morta, pelo menos aqui no Brasil. Responsáveis pela prevaricação, há vários, como já aconteceu com o champanhes e mozarelas (não me encham o saco com ortografias e suas reformas – quem quiser “muçarela”, que escreva “cruassã”, pois ambos, igualmente patéticos, estão no dicionário).
De volta à indignação, me atenho ao meu mercado: já vi profissionais de comunicação agindo em relação ao caso como se uma denominação de origem fosse uma medalha que se recebe no colégio, por comer o lanche todo no recreio. Não é. É um título, um direito que se assume como um resultado de mérito e tradição assim como o grau de um médico ou de um advogado é alcançado, através de estudo, dedicação e comprovação de eficiência. A denominação equivale ainda a uma patente industrial, que se obtém, acima de tudo, por comprovar a autoria e, no caso das denominações, a procedência. Se o produto indica o lugar, só pode ser feito naquele lugar. Não há exceções.
Obter o reconhecimento de uma denominação de origem não é mole. São anos de fiscalizações técnicas, observação de regras centenárias, imposição de restrições, estabelecimento de limites, petições por proteções locais, lapidação de legislações nacionais e submissões a apreciações internacionais até que um pedido de apelação de origem protegida seja enviado ao único órgão global que pode outorgá-lo como as mais abrangentes mas igualmente exigentes (IGP e ETG) e a quase inatingível DOP (DOC não existe – e o que resiste é ridicularizado). Esse órgão de outorga é a União Européia ou, no caso de não componentes do órgão, as autoridades agrícolas de cada país.
Todos esses processos levam anos, às vezes mais de uma década – e a Gruyère é prova disso. Levou 17 anos para ser aprovada como IGP – Indicação de Origem Protegida. É menos sexy do que uma DOP, mas, na justiça, é igualmente potente, pois diz direitinho como foi feito, com que produtos, em que condições, em que quantidades. E, mais importante, onde. Afinal, trata-se de uma denominação de origem.
Mas eis que me chega um press release de um restaurante medalhado do Rio de Janeiro, que nos anuncia um cardápio com produtos como a Mozzarella di Bufala Campana sendo anunciadas com a certificação D.O.P., ou seja, como originais da região. Conhecendo bem os rigores abusivos da legislação de Tordesilhas em relação à importação de queijos, desconfio e pergunto à jornalista de onde vem o produto, realmente. A resposta foi sensacional: – de uma fazenda em São Paulo.
De duas, uma: ou enquadro a jovem por estelionato ou falsidade ideológica – são esses os casos, rigorosamente – ou começo a produzir meu Bordeaux em Juiz de Fora.
Em tempo: a chancela DOP da Mozzarella di Bufala Campana, a autêntica, está fazendo 10 anos. Levou 9 anos para ser conquistada, após longa e severa observância das especificações estipuladas pelo Instituto Italiano de Agroalimentação, antes de chegar aos boards da União Européia. E pode ser produzida SOMENTE nas próvíncias de Latina e Nápoles, na Campania, na área de Foggia, na Puglia, e em alguns municípios do estado de Molise, conforme publicado da versão do Diário Oficial que o organismo mantém, para manter o espertinhos bem informados. O leite, somente de um produção limitada de búfalas da raça italiana mediterranea criadas na região.
O churrasquinho no espeto é um monumento da gastronomia carioca. E de caráter arqueológico, já que está na crônica das ruas do Rio de Janeiro, na arqueologia e na literatura. Era quitute de trabalhadores libertados – ou até de seus senhores empobrecidos. Em qualquer caso, a origem humilde significava riqueza de aromas – o cheiro de qualquer churrasco é desconcertante mesmo na mais miserável das esquinas.
Mas parte da graça está na contradição: os churrasquinhos não são mais churrascos, assim como os espetos perderam os espetinhos, em um estado de completa alforria à mesa. É exemplo que casas como o Esplanada Grill dão ao mundo, com direito a linguicinha, filezinho, franguinho e qualquer outro diminutivo com o qual o carioca trata aquilo que lhe é do tocante no paladar e no coração – ou, se quiser, do coraçãozinho.
Esplanada Grill
Rua Barão da Torre 600
Ipanema
Reservas:
Aberto todos os dias para almoço e jantar
www.esplanadagrill,com.br
O lançamento do pack de sabores das sopas Campbell’s me lembrou um trecho da infância. Nada proustiano, prosaico, até. Antigamente, existia loja de importados. Eram poucas, discretas, quase, mas de vitrines tão reluzentes quanto caóticas. Em uma delas, a York House, em Copacabana, misturavam tudo. Lembro de ver aquele batmóvel da Corgi Toys misturado com uma garrafa de licor; copos de cristal com gravatas de seda; apontadores de lápis transados e estojos de uísque Royal Salute, que só interessavam àquela criança pelo belo saco de veludo roxo.
E tinha sopa Campbell’s. Fascínio! Era importado! Não me lembro bem como, algumas latas foram parar lá em casa. Ainda lembro da diferença que senti dos sabores das sopas que tínhamos aqui. Negociei alguma coisa com a família e fiquei com as latas, que preparava sozinho, escondido, comendo na panela, para não correr riscos. Eram de sopas de legumes, pedaçudas, nenhuma cremosa. Pela distância de Maggis e Knorrs, não deixava de ser uma iniciação gastronômica.
Os tempos mudaram, os portos foram abertos às nações amigas e a importação virou negócio a granel. Marcas famosas estabeleceram-se aqui, a Campbell’s inclusive, com seus cantos próprios nos supermercados. Lá estão os ícones, dos aspargos aos cogumelos, passando pelo ícone de Andy Warhol, a Tomato Soup.
Os três e mais um, o creme de lentilha, estão no pack, que levariam muitos ao delírio na época. Hoje, muito mais em conta, pode ser encontrado pelo preço sugerido de 27 reais em São Paulo, em pontos como o St. Marché, o Emporium Dinis e a Casa Santa Luzia. Ou no Rio, no Península Delli, na Barra da Tijuca. Mas o que eu espero mesmo é a de legumes.

Batmóvel da Corgi Toys, tão exclusivo na época quanto a sopa Campbell's da vitrine da importadora York House, em Copacabana.
Lançado ano passado, consolidado esse ano. É o Wine Lounge, que a importadora Wine Brands promoveu como uma forma criativa de quebrar o formato de feira de produtos, o famoso road show, ao qual o mercado já se acostumou. Música, câmeras e ação em torno do vinho, que trouxe a São Paulo, no dia 2, e no Rio, dia 3, representantes de rótulos como a francesa Albert Bichot, a chilena Anakena e as italianas a italiana Antinori, Prunotto, Falesco e Costaripa.
O formato de sala, sem os estandes enfileirados, permite contatos mais próximos com enólogos, produtores e proprietários das vinícolas, além de um serviço personalizado de finger foods, assinados, nesse ano, no Rio, pelo chef Ricardo Lepeyre, responsável pela gastronomia do MAM, onde o evento foi realizado. Para quem quer se planejar para o ano que vem, o preço deverá se manter em um patamar razoável como o desse ano, 270 reais, que, na ponta do lápis, não paga uma das boas garrafas servidas no evento.
Surpresa de uma cerveja que começa boba e termina com sabor instigante, consistência adorável e desafio para quem tentar harmonizar. Azeitona, no extremo do amargo da conserva, ou o caldo de feijão, pela untosidade, fariam um bom par com essa bela cerveja. A pesquisar o efeito do agente causador de uma certa emanação de poeira de feno. Rótulo moderno em serigrafia, tipo hot stamp, inclusive a do elegante preto sobre preto.
Lendo depois as fichas e avaliações, bateram dúvidas e curiosidades: as american I.P.A. chegaram ao nível de serem referência na Inglaterra? Ou será que isso justifica o rótulo Innovation, com a entrada do amargoso lúpulo columbus? Será que voltam a produzi-la? Uns dizem que, por ser ocasional, sim. Outros, dizem que não.
Para os que curtem a relação entre os vinhos, vale a informação: há um corte multinacional de lúpulos, que contribuem com paladar, amargor e, como veremos, equilíbrio. Um deles é o boadicea, inglês, homenagem a uma rainha celta que pôs os romanos pra correr, é pura fruta e transmite um aroma de grapefruit que eu não senti. Outro é o columbus, puro amargor que os americanos aplicam em suas I.P.A.s. E, por fim, o styrian goldings, esloveno, que os belgas usam em seus ales.
Origem: Southwold, Suffolf
País: Inglaterra, Reino Unido
Produtor: Adnams PLC
Tipo: American I.P.A. (BAdvocate)
Álcool: 6,7%
Lúpulos: boadicea, columbus e styrian goldings
RateBeer: 92
Beer Advocate: 85 (very good)
Brejas: Sem cotação / 4,2 (amigos)
Talheres: 75-85 (vale a experiência para mostrar a um amigo. Mas é só.)
Alissa Ohara sugere, a gente obedece. E lá veio o combinado de sushis de olho-de-boi e… água viva, lá no balcão de cima do Azumi. Longe daquele aspecto sinistro, o bicho chega na maior elegância: fatiado como uma massa do tipo cabelo-de-anjo, mas com jeitão de vermicelli, já que é transparente. Pelo que eu já tinha lido, é pura consistência. E também aparência, com reflexo de um branco que os japoneses reconhecem, como saberemos já.
Mas nem gosto de maresia tem, apesar de ser desidratada pelo salmoura e pela exposição ao sol, como revela nosso professor Richard Hosking, que entrega outra forma de preparo, em sunomono de qualquer das duas espécies, de nomes que parecem extraídos do universo de Sahkespeare: Stomolophus e Rhopilema. Très romantique.
Fiz a foto e, tempos depois, pra valorizar o post, pedi à Alissa que me passasse o nome e a grafia da iguaria em japonês. A resposta veio fácil, tranquila, contextualizando como poucos jornalistas fariam. Competência é um estágio anterior ao refinamento, afinal. A prova está no que ela me enviou de informação, que reproduzo abaixo (não sei se tem sempre – vale sempre a pena checar. Aliás, se não reservar, corre o risco de ficar tomando cerveja lá fora:
KURAGE
Duas formas de escrever, mas a primeira vem de China, que deve ser o mais correto. 【水母】【海月】
1 『水母』は中国語 em chines, ao pe da letra e, mãe da agua. mas tem lendas sobre a origem. É meio fantasioso. Uma das expressões, 『海月』は日本語で、, em japonês, significa, ao pe da letra, lua do mar.
2. 『水母』は生物としてのくらげのことで、refere-se apenas ao animal. 『海月』は食材としてのくらげのこと refere-se à materia prima, para preparar e comer.
3. 『水母』は、死後海に溶けて還っていくくらげの生態のイメージから付いた名で、Tem a ver com a miragem da água viva que apos sua morte, derrete dentro da agua e se funde… algo assim. 『海月』は、海中から見上げたくらげの姿がまるで月の様であったという見た目のイメージから付いた名 Um portugues olhou para a agua viva e comentou que parecia uma lua boiando no mar, e desta impressao inventaram esta forma de escrita.
Falando da água viva, ou da mãe d’água, ou da lua do mar, Alissa mostrou que é a estrela aqui na terra.
Ninguém ama (ou odeia) tanto o Mark Zuckerberg para desejá-lo na ponta de um palito. Mas os caras conseguiram os dois, com direito à reprodução perfeita do azul do Facebook para retratar o criador de nosso vício, o senhor Mark Zuckenberg. O sorvete é a mais recente criação da Stoyn, agência de publicidade russa, que lança seus picolés baseados em personagens nas edições anuais da ArtBasel, em Miami.
E eles foram longe para conseguir a tintura: as flores azuis de certa espécie de feijão-bravo, a Clitoria ternatea. Só não se sabe em que categoria das edições anteriores o lançamento está inserido: se é na galeria de vilões como Darth Vader, Chucky ou Freddy Kruger ou na de figuras patéticas como Mickey Mouse ou Che Guevara.
Como todo show, o da Coca-Cola não pode parar. Como sempre, a moda é o tema, mas dessa vez a ascensão feminina foi o mote e Marc Jacobs o novo estilista. Assim, com direito a festa cintilante em Londres, pelos 30 anos da Diet Coke na Europa, a marca lançou a sua nova edição especial das latas e das garrafas de seus refrigerantes. São três padrões, cada um deles incorporando a moda de uma das três décadas. Com a série, que já está nos supermercados do Velho Mundo, enriquecem os colecionadores, que já contam com criações de Diana von Furstemberg, Karl Lagerfeld e Jean-Paul Gaultier para a marca.
Duas visitas, duas farras. Quem pensa que a Braz torna-se a alegre e barulhenta cantina somente aos domingos, pense duas vezes. Ou não pense. Vá em qualquer dia e use os seguintes passos, testados e aprovados por comensais como Cristiana Beltrão, Bruno Agostini, Nicola Massa, Elaine Oliveira e Duda Zagari, todos catedráticos em paladar e em bagunça.
1. Se não pedir o chope, peça um dos vinhos que a casa encomendou à vinícola Cascina Roera, para comemorar os seus 15 anos. É um barbera perfumado, com corpo, fruta e valentia para encarar as pizzas, especialmente as mais picantes.
2. Peça a pimenta calabresa que vem em potinhos para acompanhar petiscos e fatias. Mas não exagere na condimentação de nenhuma das sugestões a saber:
3. O corniccione. São vários tipos. Qualquer um deles vale a pena. Crocantes e viciantes.
4. Exigir as calabresas no espeto. Se não estiverem no cardápio, convoque o delegado de plantão.
5. Sirva mais um copo do barbera.
6. Peça a pizza maçarico, ligeiramente picante, farta no queijo e na cebola.
7. Junte-se a esta editoria na queixa ao Eduardo: por que entregam em domicílio em praticamente toda a Zona Sul, menos na Gávea? Sei que não vai dar em nada, afinal, essa história acaba mesmo – e começa – em pizza.
Dinâmicos e biodinâmicos. Coisa moderna para a fama tradicional que precede os vinhos da Dr. Bürklin-Wolf e seus rieslings do Jardim dos Jesuítas (Jesuitengarten). É a maior propriedade da região do Palatinato – ou Pfalz, como prevê o rótulo. A insígnia é reminiscente dos primórdios da casa, em idos de 1597, época em que o Brasil, embora descoberto, ainda não existia – há quem diga que não existe ainda.
Mas a garrafa concentra o trabalho secular dos meros 85 hectares da propriedade (aqui, pouco, lá, muito) e de uma essência de corpo denso, cheio de especiarias e originalidades. A safra da foto acima, a 2003, apresentada no último evento da importadora Mistral, está entre as mais indicadas pelo guia de Oz Clarke. O preço sugerido, hoje, é de 350 reais. Nem Jancis nem a turma da Wine Spectator têm cotação para esse rótulo.
Mas eu tenho: levava fácil debaixo do braço. No Palatinato, isso é um elogio milenar.
Há calor na estrutura de sua uva, a chardonnay, há conforto no calor mineral que as pedras quentes do verão da região transmitem ao vinho, há aconchego das notas de peras cozidas. Este é um rótulo que pode ser considerado quente, não importa a temperatura, graças à estrutura que esse vinho traz da Borgonha, mais exatamente da área de Saint-Aubin, de vinhedos 1er cru, contíguos aos de Chassagne-Montrachet, a fina dos brancos finos.
“É uma região ainda subestimada, mas de vinhos de grande estilo”, comenta o crítico Hugh Johnson” a respeito da região. Deste vinhedo específico, En Remilly, sai este branco gastronômico, floral e com evolução para um mel agradável, adequado para os molhos delicados que acompanhem a vitela ou de um frango, de preferência o da vizinha Bresse.
Na Wine Spectator, o rótulo não foi provado. Mas o similar de 2010 abocanhou 89 pontos, com chamada para notas de limão (que não senti – o que eu senti foi o fruto maduro que Hugh Johnson citou) e a promessa de uma longevidade até 2022. Jancis Robinson cita diversas apelações. Não essa. O produtor, apresentado em uma reunião de emergência convocada pela Grand Cru, ainda aguarda sua citação nos guias de Oz Clarke e do já citado Johnson.
Não dá para levar muito a sério a onda das flores comestíveis. Embelezam, sim, mas são raras aquelas que não arruínam a salada fresca com um travo além do amargo medicinal – ou à sobremesa, quase sempre com uma violeta gentil, mas de paladar agudo, quebrando a aridez agreste de uma crème brulée esturricada. De qualquer forma, estando na contramão de sua função na natureza ao chegar ao prato, a flor tende a comprometer a estrutura do prato que pretende decorar. O contrário pode acontecer, claro, com as descobertas de um Michel Bras ou as negociações de sabor de um Anduriz. Fora isso, raríssimo.
Mas a busca pelas delicadezas do paladar envolve curiosidade e desprendimento. Nem que seja para queimar a língua – e quem nunca a queimou? -, especialmente a desse primeiro parágrafo, calcinada pela surpresa.
O manjericão da varanda florou forte e denso. Uma pétala não faria falta e, dedos em pinça, foi direto para a língua. Não sei se é o adoçante perfeito, mas sei que é o que muitos procuram: açúcar intenso mas delicado, largo, generoso, sem enjôo. Aquela folhinha me lembrou a bala toffee, aquela safada, mas deliciosa, da porta do colégio de meio século para trás. Não tenho idéia do que fazer com aquilo, em que usar, muito menos em que quantidade. Mas o fato é que, enquanto durar essa primavera sem caráter que é o nosso inverno, as flores vão ter audiência matinal garantida. Mais ainda do que as folhas que a planta recomenda.
Volta e meia, lanço uma brincadeira no instagram sobre o meu café da manhã, lembrando o absurdo de não termos ingredientes como shoyu, ovas, coentros, pimentas e outros condimentos, massas e seus ensopados, carnes como o de cordeiro e seus molhos. Não é só uma debochada com o senso comum – odeio café com leite e pão com manteiga de manhã; depois, tudo bem – é também uma certa inveja de outros povos, que têm alguns desses ingredientes como deliciosos fundamentos de seus desjejuns matinais.
Americanos e ingleses fartam-se em seus breakfasts tradicionais, com lingüiças (com trema, claro), hashbrowns e até feijões. O Sudeste Asiático acorda com o conforto de uma sopa com massa. Os marroquinos despertam com uma fritada em gordura de cordeiros. Os nórdicos abrem seus pães para ovas e arenques defumados. Qualquer “continental breakfast” de hotel grande tem até cogumelos, aspargos e tomates grelhados. Cadê as azeitonas dos turcos, os pepinos dos gregos e, já que estamos onde estamos, o arroz dos chineses, os feijões dos egípcios?
Enfim, os posts geram sorrisos, gracejos e reações como a uma piada. Ou risotas do gênero “esse cara tá louco pra aparecer”. Mas também já gerou discussões séria e definitivas, especialmente um dia em que planejavam um café da manhã pra mim: queijinhos, pãezinhos, tapioquinhas, granolinhas, leitinhos desnatados, prensados de peru e outras decadências do paladar.
Retruquei já sem paciência: “quer me acordar feliz? Me serve um filé à parmegiana ao acordar”. O clima pesou. Foi exagero, eu sei, mas em termos. Afinal, quantas vezes já não preparei meu pão francês com um resto de picanha fatiada, de passagem leve na manteiga crepitante da frigideira? Às sete da manhã, claro…
É coisa de quem bebe, eu sei. Mas o dia começa com novo vigor, como aquele que descobre que tem um resto de pizza na geladeira e passa o resto do dia sorrindo, não somente pelo sabor, mas pela transgressão das regras ortodoxas. E pela fuga daquela pasta que inistem em chamar de ricota. Ou aquela borracha que tentam nos convencer de que é um queijo minas.
Mas a conversa acabou ali. Tanto o café da manhã quanto todas as demais refeições que estavam sendo planejadas foram canceladas para sempre. E olha que eu nem comecei a falar em bebidas matinais…
No último dia 6 de agosto, Andy Warhol completaria 85 anos. Mais ou menos na mesma data, um dos ícones de sua coleção – e da própria gastronomia -, a sua concepção da lata de sopa de tomate Campbell’s completa 45 anos. Jornalista adora data redondinha e quando a pauta também chega fechadinha, o orgasmo editorial é inevitável. Não sou exceção.
Especialmente agora, que a Perrier, fleugmática diante da exclusão da galeria de ícones que inspiraram o artista (em bebidas, só a Coca-Cola o foi), lança uma coleção de rótulos que relembram o traço serigráfico desse que, menos pintor e mais ilustrador, menos artista e mais publicitário, tornou-se uma influência do que entendemos como pop art. A ação traz um rastro de nobreza: a Dom Pérignon, que lançou uma coleção com a estética do designer, em idos de 2010.
Mas se a Coca-Cola esteve entre as fontes de inspiração do cara, é justo que a Perrier também esteja. Tem alcance, é referência, é marca de design, é chique – no desenho de Warhol, até a banana do disco do seu projeto musical, o Velvet Underground, tornou-se estampa de camisetas descoladas.
Formas de se pensar a respeito, há várias. Conjecturas, mais ainda. Em Warhol, a Perrier tem o alcance de uma Marlyn Monroe ou de uma Elizabeth Taylor; se Elvis não morreu, a Coca-Cola, também não. E, em uma época de republiquetas, a banana chegou tão prosaica e debochada no traço do artista quanto a referência (nunca uma homenagem) a personagens tão patéticos quanto Mao Tse Tung ou Mickey Mouse.
Tem certas pesquisas que merecem mais profundidade. Uma delas é a que me intrigou: Espaço Açores, que Joe Best, um chef rock’n’roll, filho de Sintra me chamou a atenção quando fiz a matéria Lisboa Remix, para o Caderno Ela, do Globo. Na realidade, ele, mui justamente, esculachou uma bobagem que eu escrevi. Mas como tudo por aqui acaba em paladar, no fim, todos sorriram.
As ilhas me dizem respeito. Já namorei filhas de madeirenses e de açorianos. Ouvi as histórias. Salivei com os quitutes. Além disso, Cristiana Beltrão acabava de voltar de Funchal, com matérias espetaculares, que ecoaram também no Globo, na EatinOut e, claro, em seu site de referência, o Bazzar.com.br. Não continue a leitura sem ler o que ela escreveu. As novidades eram frescas, portanto. É claro que eu tinha de pesquisar o que seria o Espaço Açores.
Na pressa que nos conduziu durante o roteiro gastronômico em Lisboa, o acelerador de Antonio Perico passou rápido pela Ajuda e só deu pra ler o letreiro. É a dor no coração que qualquer destino me causa, o de não poder visitar tudo o que queremos – pior, o que precisamos. Mas que Mr. Best me aguarde.
E eis que falo dos hambúrgueres que experimentei em Portugal e do orgulho em que se aplicam ingredientes locais. O do Espaço Açores, não provei, mas gostei. De dois deles, aliás.
O primeiro, o da foto ao alto, em que J.B. nos traz a carne dos Açores, uma vitela lardeada e guarnições como o patê de cavala, rolinhos de biqueirão, camarão e molho 9 ilhas (olha o orgulho aí…), à base de pimenta da terra batida com maionese. O da foto de baixo, um autêntico despertar da montanha, com a vitelona moída, cheddar, pasta de fígado, molho de iogurte, sour cream e molho de iogurte. Será meu pequeno (grande) almoço na próxima baldeação por Sacavém.
































