No filme “Saturday Night Fever”, o impagável Tony Manero, personagem de John Travolta, tenta impressionar a moça chique que o acompanha e pede um hambúrguer e… um café. Dá certo, isso? Por que não? Com o desenvolvimento das misturas de grãos e com a elevação do paladar do café aos níveis gastronômicos, surgem muitas oportunidades de se harmonizar o café.
No campo das bebidas, já são famosos os casamentos de espressos finos com conhaques, uísques envelhecidos e até destilados brancos, como a grappa italiana e a bagaceira portuguesa – em Lisboa, a mistura dos dois é conhecida como café cortado, o mesmo “caffè corretto” dos italianos. No campo dos vinhos, há quem preze a degustação de uma boa demi-tasse com portos e outros requintes de fórmula similar, como o banyuls, um clássico do sul da França.

Twin Peaks, o filme. Kyle MacLachlan e a frase que transformou a área do Colorado em destino de turismo cafeeiro. (Reprodução)
Já no prato, as harmonizações do café com itens adocicados não são segredo. É o caso do bolo de broa, que contribuiu com a construção do caráter do mineiro, do muffin e dos cup cakes, que ajudou a bebida a rivalizar com o chá inglês, são os biscoitos, imortalizados pelos petits-fours franceses.
As próprias versões de tiramisù e de cheese cakes, quando cobertos com pó de café, são sugestões coerente com a máxima já estabelecida pelos vinhos: um prato feito com qualquer vinho acompanha o próprio vinho. Ou, de volta às telas, com a sugestão do detetive Dale Cooper, vivido por Kyle McLahlan, em Twin Peaks, de 1994: « “a slice of cherry pie and a cup of coffee, damn good food” »
Nos botequins cariocas dos anos 1920, tomava-se café com queijo minas de meia-cura, em interessante desconstrução do café com leite. Pelo menos até que picassem o queijo e pusessem na própria xícara. Era uma das formas de “café mineiro”.
E há um clássico do refinamento, que é o café finamente passado e servido com chocolate, que os britânicos evoluíram ao dar o toque da hortelã e criar o after-eight, que brilhou em cena de Thomas Crown, no momento tenso do café, no jantar do Cipriani, em Nova York.
Dependendo do corpo, intensidade e paladar são determinantes para fazer com que o café acompanhe as diferentes fórmulas à base de farinha, dos waffles e crepes ou das confeitarias vienenses ao bom pão de leite. Nesse último caso, abstraído o recheio do hambúrguer, o sanduíche vem a ser uma boa companhia para o café, o que nos remete à questão inicial: quem diria, em plenos “Embalos de Sábado à Noite”, John Travolta parece ter acertado em cheio.




